domingo, 14 de abril de 2013

Quando nada funciona

E as opiniões se divergem mais uma vez.

O assassinato do universitário Victor Deppman, 19 anos, por um menor de idade, 3 dias atrás, trouxe novamente à tona um antigo assunto: a maioridade penal.
Como a sociedade é efêmera e volúvel, tais assuntos considerados polêmicos têm que ser abordados muito rapidamente antes que fujam do alcance daqueles que acompanham assiduamente a mídia, que nada mais é do que uma renovação constante. 

Portanto, eis minha abordagem:
A sociedade brasileira é definida por mim como "8 ou 80". De um lado, temos os pseudo-reacionários, que querem punições mais severas para criminosos e a diminuição da maioridade penal a todo custo e, do outro lado, temos os utopistas que acreditam que a educação brasileira é capaz de mudar o caráter de um indivíduo.

Minha opinião? Nenhuma das duas visões é válida e eu vou tentar explicar o por quê.

O vice-presidente da república, Michel Temer, deu seu depoimento sobre a situação da maioridade penal e disse: "Li hoje um argumento para reduzir [a maioridade] para 16 anos, mas, e daí, se o sujeito tem 15 anos e meio, e comete um crime, vamos reduzir para 15 anos? Não sei se é por aí a solução", disse. "Talvez seja aquilo que o governo federal está tentando fazer: planos para dar incentivo e amparo aos menores".

Acho que o vice-presidente deve saber melhor do que eu que esses "planos de incentivo e amparo aos menores" estão longe de serem eficazes.
Se temos escolas cujo o prazo para entrega está atrasado a mais de dois anos, se temos a Fundação Casa, para onde o menor de idade que assassinou Victor foi encaminhado, que já atingiu duas vezes o número de menores permitido (ou seja, superlotação), será que teremos um plano de incentivo e desamparo aos menores realmente eficiente?
Somos a 6ª maior economia mundial e estamos em penúltimo lugar, de 40 países analisados, no ranking de qualidade de educação, segundo dados de 2012.

E uma grande ilusão é crer que a educação pode mudar a essência de um indivíduo.
E se o criminoso for diagnosticado com sinais de psicopatia, por exemplo? A Fundação Casa se julgará um órgão impotente nesse aspecto e, nesse caso, o que realmente traria resultados de melhora seria uma internação ou acompanhamento psicológico.

Mas quando, em um país como o Brasil, teremos acompanhamento psicológico para os "meliantes"?
Nunca.

E acredito que a família e os amigos de vítimas de menores de idade, em um momento de tristeza e rancor, dificilmente aceitarão argumentos de que "punição não é a solução! Precisamos de mais educação"
O que essas pessoas procuram é justiça e, em casos mais graves, vingança. E é a partir daí que começa o problema.

A redução da maioridade penal se mostra, também, ineficaz porque a justiça no Brasil é igualmente ineficaz. Se o indivíduo for preso com 16 anos e entrar com alguns recursos na justiça, será solto 2 anos depois e estará livre para cometer mais crimes. 
O sistema carcerário brasileiro está entre os piores do mundo e seria um antro para o adolescente desenvolver um certo "ódio de tudo e de todos" e, pior, desenvolver um contato com o crime organizado bastante presente nas prisões brasileiras, o que não ajudaria em nada na sua recuperação. Além disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente já reserva determinadas penas para o menor infrator, e a principal é a internação em entidades, como a Fundação Casa, por 3 anos.

Portanto, nenhum dos lados funciona porque o nosso país não funciona.
Temos leis que não se cumprem, falta de investimentos em educação, nos presídios, na Fundação Casa e etc.
Tudo se encaminha para uma visão dita como "pessimista", mas que eu julgo como "realista": Diminuição da maioridade penal é imediatismo e a fé na educação como "mudança" é utopia.

Que seja feita a justiça, de uma forma ou de outra, e que o Victor, e muitas outras vítimas de tamanha crueldade, descansem em paz.



sábado, 23 de março de 2013

Calda de menta e sinceridade

O abastecimento do meu vício por café é o Mc Donald's.
Além de ter o expresso mais barato da região compreendida entre as estações Trianon-Masp e Brigadeiro, tem um ambiente agradável e misterioso.
Misterioso porque só é possível acessar o chamado "Mc Café" ou por uma travessa da Paulista, ou por uma discreta escada nos fundos do Mc Donald's, quase uma plataforma 9 3/4 brasileira...

E posso dizer que penei pra achar esse lugar. Perguntei pros funcionários do lugar e eles disseram:
"É uma escada no canto do estabelecimento, moça"

Se fiquei 5 minutos procurando, é pouco.
Até que me deparo com um cartaz gigante dizendo "Não perca essa promoção, expresso por R$ 2,50" (ou algo do tipo) e uma flecha vermelha apontando para a diagonal inferior esquerda.
Se fiquei 5 minutos encarando o cartaz, é pouco.
Enfim, tive a brilhante ideia de olhar "por trás" da parede na qual estava pendurada o cartaz e descobri uma escada de mármore.
Desci as escadas, comprei meu expresso e fui pra faculdade.
E esse foi o início de uma bela história de amor e dependência.

Agora vamos para o acontecimento em si.
Semana passada, descobri alguns trocados a mais no bolso da minha calça. Somei com os trocados que já tinha (em uma das primeiras contas de matemática do ano) e descobri 6 reais.
"Dá pra comprar dois expressos e ainda sobra 1 real pra absolutamente nada" pensei.
Porém, após descer as escadas de mármore da tentação, peguei o cardápio e uma bebida que tinha leite integral, café, chocolate e menta me interessou. E o mais interessante era o preço: 6 reais.

"Moço, quero esse daqui"
"...Um momentinho, moça"
Outro atendente veio falar comigo, fiquei confusa.
"(pigarro) Então, moça, não temos esse que você quer"
"Ah, não?"
"Na verdade, não é que não temos... É que eu não sei fazer..."

E agora, leitor fantasma?
Deveria ter ficado brava pela falta de treinamento que o Mc Donald's dá a seus funcionários ou deveria ter ficado orgulhosa da raça humana pelo atendente ter sido o mais sincero possível?
No fim, fui indiferente.
Dei uma risada meio cor de burro quando foge e paguei 2,50 pelo expresso.
Os outros 3,50 estão guardados, caso queiram saber.

Ainda estou em busca da minha bebida com calda de menta e de melhor preparo do proletariado.
Fui




domingo, 10 de março de 2013

Enfim, saudade

"Não aguento mais essa escola"
"Quero minha faculdade!"
"Não vou usar física na minha vida pra nada, mas que ..."

Essas foram algumas das frases que eu mais pronunciei no ano de 2012.
Eu não via a hora de conhecer o novo, o mundo universitário, estudar coisas que realmente me interessavam...
Então o dia chegou.
E posso dizer que minha faculdade é a melhor. E tenho certeza que meus quatro anos na Cásper serão inesquecíveis.

Porém, isso não me impede de sentir saudades.
Sentir saudades de tudo que eu queria me livrar no ano passado.
Saudade de cada professor, amigo e funcionário da minha escola.
Saudade da nossa interação, da nossa união.

É engraçado ver as pessoas que eu via todo dia seguindo caminhos diferentes.
Seja pra intercâmbios, cursinhos ou faculdades.
É estranho não vê-las mais todos os dias, é estranho não mostrar o caderno de exercícios pros professores, é estranho não separar meu uniforme na noite anterior.

Por isso eu digo: aproveitem, leitores fantasmas colegiais.
E não me entendam mal!
Existe uma vida maravilhosa fora do Ensino Médio, mas cada etapa da vida tem que ser vivida a sua maneira.
Tenho certeza que, daqui a quatro anos, estarei dizendo o quanto vocês devem aproveitar a faculdade.
Enfim, estamos só começando.

Tenho muitas saudades, terceiro ano.
Boa sorte pra gente!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Yoani Sánchez: um troféu e um alvo.


Olá leitores fantasmagóricos.

Hoje vou me aventurar em mais um post cujo tema tem forte relação com a política (nacional e internacional).

Vou confessar que não me atraio por política, pois é bem visível que essa ciência maravilhosa é destruída a cada dia por políticos brasileiros e por seus esquemas de corrupção, dossiês e promessas não cumpridas.
Tenho perdido cada vez mais a fé na política brasileira e posso dizer que não sou favorável a nenhum partido, sou favorável a uma justiça ágil e eficiente.

Mas minha posição política não vem ao caso, hoje eu quero compartilhar a repercussão da visita ao Brasil de Yoani Sánchez, blogueira e jornalista cubana.







Quem acompanha os jornais e revistas, de modo superficial, sabe quem é Yoani Sánchez e o que ela faz: A jornalista é detentora de um blog que condena a ditadura cubana e a falta de liberdade de expressão no país.
Porém, quando o assunto é pesquisado mais profundamente, surgem diversas especulações e teorias como as que apresentarei a seguir:
Yoani já foi acusada de ser uma marionete do governo americano já que ela manteria estreita relação com a diplomacia estadunidense em Cuba, como afirmam alguns,
Yoani também seria financiada pela Sociedade Interamericana de Imprensa e estaria ganhando 6 mil dólares por mês ao prestar “serviços” em seu blog para os Estados Unidos, dentre outras.
Ou seja, Yoani é taxada por muitos como uma oportunista e capitalista de carteirinha.

Sua visita ao Brasil foi bastante conturbada, diversas manifestações impediram-na de falar um pouco mais sobre seu ofício e sobre a vida em seu país às plateias brasileiras.
Mas o que não foi impedido, de fato, foram as diversas atitudes dos direitistas e esquerdistas brasileiros que se mostraram, no mínimo, incoerentes.

Políticos direitistas, como Jair Bolsonaro, homofóbico e ex-militar, ovacionava Yaoni, exibindo-a como um troféu da oposição. Algo totalmente abstruso, visto que Yaoni é uma defensora dos direitos humanos e Bolsonaro já chegou a defender a ditadura militar e as torturas que aconteciam durante o período. É uma ironia uma blogueira que, aparentemente, defende a liberdade de expressão, ser recepcionada por políticos favoráveis à ditadura e à censura dos meios de comunicação.

A atitude incoerente de esquerdistas se revelou através de manifestações pró-regime cubano.
Como é possível uma democracia, como a brasileira, ser usada para defender uma ditadura, como a cubana?
Porque, convenhamos, a pessoa que imagina Cuba como um paraíso, onde o socialismo cumpre seu papel em todos os setores da sociedade, deve parar de ler revistas de turismo e abrir um pouco a cabeça.
Pessoas passam fome em Cuba, há falta de remédios, roupas e o simples ato de pensar é condenado pelo governo.
Governo este que atribui qualquer problema ao embargo econômico que sofre dos Estados Unidos, que é sim ineficaz, mas não é a fonte de todos os males de Cuba.

Se Yaoni é de fato uma marionete dos EUA, se ela recebe salários para atacar o regime cubano, ou pior, mesmo se ela não souber da onde vem o investimento em suas ações, em uma atitude um pouco infantil e positivista, eu me focarei apenas na atividade que ela exerce: A luta pela liberdade de expressão. Eu simpatizo com Yaoni, pois simpatizo com suas ideias.
Queria saber de vocês, leitores fantasmas, o que vocês acham de Yaoni e de tudo que a envolve.

Primeiro post que eu peço a opinião de vocês, então CONTRIBUAM.
Obrigada, hehe.

Dica: Yoani Sánchez estará no Roda Viva, programa da Tv Cultura, nessa segunda-feira às 22:00. Assistam!


Fui-me





Revista Veja

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crítica Cultural #1: Amor


Sentimento claustrofóbico
Com a presença forte de simbologias e verossimilhanças, o filme “Amor” é o preferido da crítica e forte candidato ao Oscar 2013.







Ao ler sinopses dizendo que o único cenário do filme é um apartamento e que seus protagonistas são um casal de idosos, “Amor” pode não soar muito convidativo, porém, é preciso deixar os pré-julgamentos de lado e conferir essa obra-prima do diretor austríaco Michael Haneke.

A trama se passa em um apartamento charmoso, digno de seus donos, Georges (Jean-Louis Trintignant, 81) e Anne (Emmanuelle Riva, 85), claros apreciadores das artes e música.
Porém, a vida consideravelmente ativa do casal sofre um baque quando Anne tem um derrame.
A partir daí, o amor dos dois começa a ser testado: Anne começa a perder a habilidades como a fala, a capacidade de andar e de se alimentar, perdas essas que acabarão resultando em um desgaste amoroso muito grande para o casal e uma curiosa reflexão sobre a espera da morte para o espectador.

A frase de François Chateubriand “Outrora, a velhice era uma dignidade; hoje, ela é um peso.” Reflete com precisão o que a “melhor idade” se tornou atualmente e o que o filme consegue transmitir muito bem.

Enquanto alguns idosos são freqüentadores assíduos de hospitais e casas de repouso, Anne se recusou a se instalar em um hospital quando sua doença se agravou, deixando toda a responsabilidade nos ombros de Georges que, exausto, contrata duas enfermeiras.
Durante o filme, o casal tenta achar um equilíbrio entre sua dignidade e o “fardo” que Anne considera ser para Georges e sua filha Eva (Isabella Huppert).

O filme se encaminha para um fim inevitável, mas que ainda provoca uma angústia a mais no telespectador, visto que esse filme não é de todo ficcional e ainda reflete a realidade de diversos idosos e suas famílias.

“Amor” mostra que cinema não é só diversão e envolve um sentimento poderoso que, por mais “piegas” que possa parecer, consegue transpor limites e emocionar a todos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Fantasmas - Parte II


Sonhei e lembro-me vagamente com o quê.
Só sei que caminhava, me sentindo muito leve, até que dei de cara com um estabelecimento, talvez uma loja, com uma placa que dizia "VASNI".

Ao longe, ouço:
"Gente, dá licença, dá licença! Deixa ela sentar!"
Semi-cerrei os olhos e percebi que estava sentada, cercada de olhares femininos e zelosos.
"Qual o seu ponto?" Alguém perguntou.
"Trianon..." Balbuciei.
Finalmente, consigui abrir os olhos inteiramente e percebi que as moças ainda olhavam pra mim.
"Não é melhor você descer no Ana Rosa pra alguém te atender?" Disse uma
"Não, acho que no Ana Rosa não tem atendimento" Disse outra
Meu cérebro ignorou tais conselhos e de minha boca apenas sairam sussuros em negação
Silêncio...
"Eu... Eu desmaiei?"
"Sim, e o seu inconsciente é tão forte que você continuou pendurada na barra"  Disse uma senhora de meia-idade de cabelos longos e pretos.

Inconsciente forte, corpo fraco. Típico.

"Desculpa... Eu... Eu não comi"
Vários "imagina" foram ditos ao mesmo tempo pelas mulheres.
Sentia calor e uma mulher percebeu.
"Toma, prende o cabelo com isso, tira seu casaco".
Aceitei a presilha mas não a usei, ainda um pouco tonta, não conseguia raciocinar direito.
"Obrigada..."
"Tá melhor?"
"Sim, sim..."
"Vai conseguir andar sozinha?"
"Vou, obrigada..."
Naquele momento minha consciência resolveu colaborar.
Percebi que quatro mulheres me ajudaram: a senhora de cabelos pretos, uma moça de óculos que lia um livro em cuja capa estavam sushis ilustrados, outra moça com os cabelos puxados pra trás, que percebi que dormia quando entrei no metrô e que me cedeu seu  lugar e uma mulher de meia-idade, parecia grávida, que estava sentada no assento especial e quando olhei para ela, ela sorriu.
Ou não, não me recordo direito.

Estação Paraíso
A mulher de cabelos longos e pretos desceu, me despedi com um sorriso.

Estação Brigadeiro
A mulher de óculos desceu, mas antes me desejou melhoras, agradeci.

Estação Trianon
Levantei-me e agradeci à mulher com os cabelos puxados para trás, ela respondeu com um "De nada, imagina".

Desci do trem e fui em direção a escada rolante, meu dia nunca havia começado tão mal assim.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Conto: Fantasmas - Parte I

Olá! 
Ao contrário do que vocês estão pensando, leitores fantasmas, o conto a seguir não é uma homenagem a vocês! É apenas um conto que terá mais duas ou três partes, dependendo do meu humor, imaginação e tempo.
Mas enfim, lá vai.



Achei um cantinho no metrô enquanto meu estômago vazio revirava o nada.
"Tome café lá"  Disse a voz autoritária invisível, aquela pousada no ombro esquerdo, com cornos na cabeça, assim que pulei da cama
"Tenho estômago forte" Incrementei em meus pensamentos

Pulo pra dentro do metrô e sinto pontadas no estômago
Ignoro por alguns momentos, mas elas continuam, agora com maior intensidade.
Me segurava, em pé, na barra de ferro quando comecei a suar frio
"Aqui não, aqui não! Não posso vomitar logo aqui"
O metrô não parava de chacoalhar.
E vomitar o quê, afinal? Minha tristeza, minha angústia? Pois era só isso que tomava lugar no meu estômago naquele momento.
O mal-estar não passava
"Acho que vou descer e ir ao banheiro vomitar, então"
Meus dentes começaram a bater incansavelmente

Bati o olho no reflexo da janela do vagão, eu parecia um fantasma.
Translúcida, sem expressão.
"É a pressão" Pensei desesperada "Desmaiar? Nunca desmaiei! Não será aqui... Ai, droga! Não feche os olhos,  não feche os..."
Meu organismo tapou meus ouvidos, senti uma gota de suor escorrer pelo meu rosto, minhas pernas bambearam e a visão escureceu. A última coisa que li foi "Chácara Klabin"
A estação fantasma, ri dentro de mim, quanta ironia...
Perdi os sentidos.